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“Mudar o mundo não é uma preocupação dos homens”

Mercedes Erra, fundadora da BETC, contará o engajamento de seu grupo contra disparidade de gêneros e admite que, para a maioria dos homens, é confortável manter o status quo da indústria da comunicação


27 de setembro de 2016 - 11h45

Por Bárbara Sacchitiello

Mercedes Erra é um ponto fora da curva. Primeira mulher a ocupar uma cadeira na Associação de Publicidade da França, ela fundou a BETC, uma das mais bem-sucedidas agências da Europa e, atualmente, ocupa o cargo de presidente executiva da Havas Worldwide. Aos 61 anos, também é professora da Sorbonne, integrante da Legião de Honra da França e membro do Fórum Mundial de Economia e Sociedade para Mulheres e também da Unesco. Nascida na Catalunha, Espanha, Mercedes mudou-se para a França com a família aos seis anos, onde reside até hoje. É mãe de cinco filhos e deixa a administração do lar nas mãos do marido, para ter tempo e disponibilidade de ajudar as mulheres que estão distantes de alcançar uma posição como a sua.

 

Mercedes Erra (Crédito: Divulgação)

Mercedes Erra (Crédito: Divulgação)

Um dos nomes internacionais mais fortes na atuação da causa da equidade de gênero, a fundadora da BETC acredita que grande parte da indústria publicitária ainda vive na era Mad Men, na qual sobram poucos espaços, cargos e vozes para as mulheres. Nesta entrevista, Mercedes — que está no Brasil esta semana para participar do MaxiMídia nessa quarta-feira, 28 — analisa em seu depoimento ao Meio & Mensagem a evolução feminina no mercado de trabalho, conta como seu grupo vem atuando para tentar reduzir a disparidade entre os gêneros e admite que, para a maior parte dos homens, é confortável que as posições na indústria da publicidade e da mídia se mantenham como estão.

EVOLUÇÃO DA CONDIÇÃO FEMININA
Comparando o início da minha carreira com o momento atual, vemos mais mulheres em posições médias e até elevadas dentro das empresas, de forma geral, e isso também acontece na indústria da comunicação. Quando comecei a trabalhar com publicidade, na França, era a única mulher entre os executivos de conta da Saatchi & Saatchi. Quando entrei para a Associação de Publicidade da França, há 20 anos, era a única mulher entre 30 homens. Atualmente, há muitas mulheres nessa associação. Mas, quando olho atentamente para os meus times, sinto que as jovens profissionais nunca estiveram tão divididas entre sua vida particular e seu trabalho. A vida tende a ser pesada para as mulheres.

FEMINISMO
Acho que eu já era feminista aos cinco anos de idade, quando percebi que era bem mais divertido ser meu pai do que minha mãe. Pelo lado simbólico do movimento, acredito que meu feminismo começou há mais de 30 anos, quando criei um grupo de mulheres dentro da minha escola de negócios, a Hec, denominado Le Groupe des Femmes (O Grupo das Mulheres). Isso acabou se tornando a luta da minha vida.

EMPRESAS EM BUSCA DE IGUALDADE
De modo geral, não vejo as empresas muito interessadas no tema. Não é um assunto real para muitas companhias da indústria da comunicação, que ainda é muito baseada em modelo masculino de atuação. A realidade do Mad Men não parece tão distante de muitas empresas de comunicação. Entre as personalidades mais criativas do mundo, há bem poucas mulheres — se houver alguma — e eu mesma sempre senti uma pressão bem masculina no Festival de Cannes. Mas, ao mesmo tempo, sou muito grata à comissão organizadora do festival pela criação do Glass Lions, em 2015, com a proposta de promover os trabalhos criativos em prol da igualdade de gênero e contra os estereótipos. Isso é muito útil.

POUCAS MULHERES NO COMANDO
Há muitas razões que explicam a baixa presença das mulheres em altos cargos nas empresas. A primeira é o fato de que a liberdade feminina é algo recente. Os direitos básicos das mulheres foram conquistados principalmente após a Segunda Guerra Mundial. Isso é nada, se compararmos com milênios de dominação masculina. Os estereótipos são difíceis de morrer. Meu marido, por exemplo, não trabalha e é o único que recebe restituições de impostos — ele recebe e eu pago. A segunda razão é o fato de termos tido que defender várias coisas na última década: nossos salários, nosso direito à igualdade, ao aborto. E a terceira razão está ligada à educação e à forma como as meninas são criadas. As mulheres ainda são criadas para serem a número 2 da relação. E isso demora muito para mudar. E, por último, mas não menos importante: não acredito que mudar o mundo seja uma preocupação dos homens. Até porque é muito confortável ser um homem.

ENGAJAMENTO DA BETC
Ainda que nem tudo seja perfeito, a BETC é um exemplo de uma companhia que está pensando nessa questão. Há paridade em nossos postos mais altos, inclusive nas presidências e fazemos grandes esforços para impulsionar as mulheres. Compensamos a licença maternidade com promoções e salários e também implementamos a licença paternidade com grande sucesso, sobretudo entre os jovens pais. Somos muito cuidadosos e sabemos que nada muda naturalmente.

IGUALDADE NO BRASIL
Não tenho a nítida consciência do que acontece no Brasil em relação à condição feminina, mas tenho a impressão de que seria bem mais fácil nascer mulher em um país nórdico do que na França ou na América Latina.

COMUNICAÇÃO ATRASADA
Considerando as práticas das agências, anunciantes e veículos de comunicação, não saberia dizer quem está mais preocupado e lidando melhor com as questões da promoção da igualdade de gênero. Mas, certamente, não são os setores da mídia nem a indústria de publicidade que estão liderando esse movimento.

MENSAGEM NO MAXIMÍDIA
Gostaria de transmitir no evento a mensagem de que a equidade é uma luta e uma necessidade de homens e mulheres. A situação global é muito séria em termos de direitos humanos básicos para as mulheres e um mundo no qual a equidade de gênero é respeitada tende a ser um mundo melhor. Sinto-me assustada ao saber que um dos princípios do terrorismo está ancorado na negação das mulheres e na construção do estereótipo da mulher dominada e sem direitos.

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